A força do cooperativismo de crédito

Em entrevista à Revista Coopera SP, o coordenador nacional do Conselho Especializa­do do Ramo Crédito da Organização das Cooperativas Brasileiras (Ceco/ OCB), Léo Airton Trombka, faz uma análise e traça perspectivas para o ramo:

Na última década, o cooperati­vismo de crédito registrou um forte crescimento no país. Na sua opinião, quais fatores foram responsáveis por essa alta?

O cooperativismo de crédito no Bra­sil começou a crescer a partir de 2008 com o evento da crise financeira origi­nada no subprime nos Estados Unidos e que se expandiu para todo o mundo, inclusive para o Brasil. Só que aí entra o diferencial do sistema cooperativo. Enquanto o capitalismo tem ban­cos, proprietários, acio­nistas e seus clientes, no cooperativismo todos são donos. Não tem o sócio majoritário. Como não visa ao lucro, quan­do aconteceu a crise, o sistema cooperati­vo tinha um colchão de liquidez muito grande. Ele pôde manter as taxas baixas para emprésti­mo, uma remuneração adequada para as apli­cações e, consequen­temente, pôde honrar compromissos e manter a expansão, porque não visava ao lucro.

Como foi a expansão no período?

No Market Share do sistema coope­rativo frente ao sistema financei­ro nacional, de acordo com dados de dezembro de 2016, respondemos por 3,57% em ativos totais, 6,4% dos depó­sitos, 5,95% do patrimônio líquido, e nós temos 3,42% das operações de crédito. Em 2014, os ativos totais eram 2,71%, e os depósitos 4,73%, o patri­mônio líquido 4,79% e as operações de crédito 2,78%. Em 2008 o crescimen­to do sistema cooperativo passou a ser maior percentualmente. Ele começou a crescer mais, uma média de 20% ao ano. Isso significa que a cada três anos o sistema cooperativo dobra de tama­nho. Mas a crise, que pegou o sistema financeiro tradicional, também pegou as cooperativas. Só que o crescimento das cooperativas de crédito continuou sendo maior do que no sistema finan­ceiro tradicional porque as taxas conti­nuaram mais baixas. O sistema bancário tradicional começou a encolher o forne­cimento de crédito, que ficou mais res­tritivo. E o sistema cooperativo não.

Como o senhor vê a atuação do BC na regulamentação das cooperativas de crédito? Ela garantiu maior segu­rança jurídica para o setor?

O BC entendeu a importância das cooperativas de crédito. Elas permitem maior distribuição do crédito, colocam as pessoas dentro do sistema financei­ro. Ele é inclusivo nos lugares onde não havia nenhum banco e compete com o sistema financeiro tradicional. As taxas são efetivamente mais baixas porque não visam ao lucro. O BC deu um apoio maior. E, sendo um órgão que normati­za, vem exigindo que as cooperativas sigam dentro da segurança e, inclusive, trabalhando em conjunto. Por exemplo, com a criação do Fundo Garantidor do Coopera­tivismo de Crédito foi um trabalho conjunto com a OCB.

Qual a importân­cia do Fundo Garanti­dor de Crédito para as cooperativas?

O Fundo Garanti­dor é fundamental para aumentar cada vez mais a credibilidade do sis­tema cooperativo. Você sabendo que o sistema cooperativo tem audito­rias, é controlado pelo BC, tem auditoria do BC, tem auditoria das cen­trais, tem auditoria das singulares. E, mais do que isso, ele tem uma garan­tia caso uma cooperati­va tenha default, esteja mal. O fundo garante R$ 250 mil por CPF, que é o mesmo do fundo garantidor dos bancos. 

As auditorias nas cooperativas contribuem, por um lado, para aumen­tar a segurança da instituição, mas aquelas de menor porte têm apontado dificuldades na contratação de empre­sas especializadas. Isso vem sendo um entrave para as cooperativas de crédi­to de menor porte? Quais as soluções?

A partir do momento que foi cria­do o Fundo Garantidor do Coopera­tivismo de Crédito, que é um fundo único para todo o sistema, tivemos o primeiro passo para a união de todo o sistema. Criado o fundo, passou­-se para o segundo passo que foi a cria­ção da EAC (Entidade de Auditoria de Cooperativa), lançada pelo Banco Cen­tral em dezembro de 2015. Ele esta­beleceu os requisitos para empresas interessadas em fazer auditoria coope­rativa. A norma que saiu do BC, número 4454, disciplina as entidades de audi­toria cooperativa. Ela deve se apre­sentar ao BC, que checa se ela atende ao escopo do trabalho. Isso traz muito mais segurança ao Fundo Garantidor. Segundo, é mais uma entidade comum a todo o sistema cooperativo. E terceiro: o objetivo é conquistar ganho de esca­la e reduzir o preço. Agora, o BC esta­beleceu um cronograma. Por exemplo, até dezembro de 2016 foram audita­das aquelas cooperativas plenas, que são as que têm maior risco. Isso abran­ge algumas maiores e principalmente os dois bancos cooperativos e as con­federações. Até o fim de 2017, as clás­sicas terão que ser auditadas e até o fim de 2018, mais em geral. Esse é o obje­tivo de procurar reduzir o custo porque agora todas vão ter que ser auditadas por entidade de auditoria cooperativa. 

O Banco Central olhou com maior atenção as cooperativas de crédito, principalmente na última década. Na sua opinião, as mudanças no governo podem alterar essa relação?

O penúltimo presidente do Banco Central era o Alexandre Tombini, uma pessoa extremamente ligada ao coope­rativismo. Antes dele, era o atual minis­tro Henrique Meirelles, que também foi uma pessoa muito voltada ao coopera­tivismo, embora ele não pertencesse ao sistema cooperativista. O Banco Cen­tral é um órgão técnico e é obvio que vai querer se manter assim. E ele é cada vez mais independente. E mantendo essa linha de independência e sabendo que o sistema cooperativo é uma solução que vem crescendo, eu não tenho nenhum temor que a mudança da direção do BC vá afetar o sistema cooperativo.

Entrevista publicada na 4ª edição da revista Coopera SP, do Sescoop/SP.

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